Redação nota 1000 do Enem 2016: João Vitor Vasconcelos Ponte

Tema: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

O Brasil foi formado pela união de diversas bases étnicas e culturais e, consequentemente, estão presentes em seu território várias religiões. Entretanto, nem essa diversidade nem a liberdade religiosa garantida pela Constituição Cidadã faz com que o país seja respeitoso com as diferentes crenças. Fazendo uma analogia com a filosofia kantiana, a intolerância existente pode ser vista como o resultado de fatores inatos ao indivíduo com o que foi incorporado a partir das experiências vividas.

Em primeiro lugar, é notória a dificuldade que há no homem em aceitar o diferente, principalmente ao se tratar de algo tão pessoal como a religião. Prova disso é a presença da não aceitação das crenças alheias em diferentes regiões e momentos históricos, como no Império Romano antigo, com as persiguições aos cristãos, na Europa Medieval, com as Cruzadas e no atual Oriente Médio, com os conflitos envolvendo o Estado Islâmico. Também pode-se comprovar a existência da intolerância religiosa pela frase popular “religião não se discute”, que propõe ignorar a temática para evitar os conflitos evidentes ao se tratar do assunto. Desse modo, nota-se que a intolerância não se restringe a um grupo específico e é, de certa forma, natural ao ser humano, o que, porém, não significa que não pode o deve ser combatida.

Além da intolerância inata ao homem, há fatores externos que intensificam o problema. No cenário brasileiro, o processo colonizador e seus legados, que perduram até hoje, são os principais agravantes desse preconceito. Desde a chegada dos europeus no país, as religiões diferentes da oficial são discriminadas. Logo no início da colonização, o processo de catequização dos nativos foi incentivado, o que demonstra o desrespeito com as religiões indígenas, e, décadas depois, com o início do tráfico negreiro, houve também perseguição às religiões afrobrasileiras e a construção de uma imagem negativa acerca delas. Toda essa mentalidade perpetuou-se no ideário coletivo brasileiro e, apesar dos avanços legais, faz com que essas religiões sejam as mais afetadas pela intolerância atualmente.

É necessário, pois, que se reverta a mentalidade retrógrada e preconceituosa predominante no Brasil. Para tal, o Estado deve veicular campanhas de conscientização, na TV e na internet, que informem a população sobre a diversidade religiosa do país e a necessidade de respeitá-las. Essas campanhas também podem, para facilitar a detecção e o combate ao problema, divulgar contatos para denúncia de casos de intolerância religiosa. Concomitantemente, é fundamental o papel da escola de pregar a tolerância já que, segundo Immanuel Kant, “o homem é aquilo que a educação faz dele”. Portanto, a escola deve promover palestras sobre as diferenças crenças do país, ministradas por especialistas na área ou por membros dessas religiões, a fim de quebrar estereótipos preconceituosos e tornar os jovens mais tolerantes

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de João Vitor Vasconcelos Ponte na cartilha do INEP
Comentário da banca

A partir da leitura desta redação, verifica-se excelente domínio, por parte do participante, da modalidade escrita formal da língua portuguesa, visto que o texto não apresenta problemas de estrutura sintática e há apenas desvios pontuais de grafia (“persiguições” em vez de “perseguições” e “o” em vez de “ou” no 2º parágrafo) e de convenção de escrita (afrobrasileiras, sem hífen, no 3º parágrafo). Por fim, há troca de palavras no final do último parágrafo (“sobre as diferenças crenças” e não “sobre as diferentes crenças”).

Nota-se também pleno domínio do texto dissertativo-argumentativo, uma vez que o participante estrutura adequadamente sua redação, apresentando tese, argumentos que a corroboram e conclusão. Além disso, o participante demonstra uma leitura atenta da proposta ao abordar o tema de forma completa em seu texto: logo no início, é apresentado o problema que será discutido, intolerância religiosa; no decorrer do texto, são explicitadas suas causas; e, ao final, são expostas as formas de combate a esse problema.

O participante apresenta, em seu texto, repertório sociocultural ao mobilizar, de forma produtiva e articulada à discussão, informações de outras áreas do conhecimento para fundamentar seus argumentos, por exemplo, no segundo parágrafo, ele aponta diversos contextos históricos marcados pela intolerância religiosa e, no terceiro parágrafo, aborda o processo de catequização que ocorreu no início da colonização.

A boa organização e o desenvolvimento consistente das informações, dos fatos e das opiniões apresentados pelo participante em sua redação evidenciam projeto de texto estratégico e bem executado, que pode ser percebido ao longo do texto. A tese do participante defende que, apesar de a liberdade de crença ser garantida pela Constituição, a intolerância religiosa se mostra presente no país devido à intolerância inata dos homens, que é agravada por alguns fatores externos.

O participante também apresenta uso diversificado de recursos coesivos que garantem a fluidez de sua argumentação. Há articulação entre os parágrafos (“Em primeiro lugar”, “Além de”, “pois”) e entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (por exemplo, “essa”, “disso”, “também”, “desse modo”, “porém”, “desse”, “apesar de”, “tal”).

Com relação à proposta de intervenção, exigência da prova de redação do Enem, observa-se que o participante realizou essa tarefa com excelência, apresentando uma proposta concreta, detalhada, na qual busca, respeitando os direitos humanos, soluções articuladas aos problemas apresentados em seu texto e ao tema. A proposta de intervenção inclui as seguintes ações: criação de campanhas de conscientização, que também incentivem as denúncias, além da promoção, por parte das escolas, de palestras sobre as diferentes crenças.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2017: cartilha do participante, página 39 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.