Redação nota 1000 do Enem 2016: Tamyres dos Santos Vieira

Tema: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

“É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”. Com essa frase, Albert Einstein desvelou os entraves que envolvem o combate às diversas formas de discriminação existentes na sociedade. Isso inclui a intolerância religiosa, comportamento frequente que deve ser erradicado do Brasil.

Desde a colonização, o país sofre com imposições religiosas. Os padres jesuítas eram trazidos pelos portugueses para catequizar os índios, e a religião que os nativos seguiam – a exaltação da natureza – era suprimida. Além disso, a população africana que foi trazida como escrava também enfrentou fortes repressões ao tentar utilizar sua religião como forma de manutenção cultural. É relevante notar que, ainda hoje, as religiões afro-brasileiras são os maiores alvos de discriminação, com episódios de violência física e moral veiculados pelas mídias com grande frequência.

Concomitantemente, ainda que o Brasil tenha se tornado um Estado laico, com uma enorme diversidade religiosa devido à grande miscigenação que o constituiu, o respeito pleno às diferentes escolhas de crença não é realidade. A palavra religião tem sua origem em “religare”, que significa ligação, união em torno de um propósito; entretanto, ela tem sido causa de separação, desunião. Mesmo que legislações, como a Constituição Federal e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, já prevejam o direito à liberdade de expressão religiosa, enquanto não houver amadurecimento social não haverá mudança.

Por tudo isso, é imprescindível que todos os segmentos sociais unam-se em prol do combate à intolerância religiosa no Brasil. Assim, cumpre ao governo efetivar de maneira mais plena as leis existentes. Ademais, cabe às escolas e às famílias educarem as crianças para que, desde cedo, aprendam que têm o direito de seguir suas escolhas, mas que devem ser tolerantes e respeitar as crenças do outro, afinal, como disse Nelson Mandela, “a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”. Dessa forma, assim com a desintegração de um átomo tornou-se simples na atualidade, preconceitos poderão ser quebrados.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Tamyres dos Santos Vieira na cartilha do INEP
Comentário da banca

A partir da leitura desta redação, verifica-se excelente domínio, por parte da participante, da modalidade escrita formal da língua portuguesa, visto que o texto não apresenta problemas de estrutura sintática e há apenas um desvio de grafia no final do último parágrafo (“com” no lugar de “como”).

Nota-se também pleno domínio do texto dissertativo-argumentativo, uma vez que a participante estrutura adequadamente sua redação, apresentando tese, argumentos que a corroboram e conclusão. Além disso, a participante demonstra uma leitura atenta da proposta ao abordar o tema de forma completa em seu texto: logo no início, é apresentado o problema que será discutido, intolerância religiosa; no decorrer do texto, são explicitadas suas causas; e, ao final, são expostas as formas de combate a esse problema.

A participante apresenta, em seu texto, repertório sociocultural ao mobilizar, de forma produtiva e articulada à discussão, informações de outras áreas do conhecimento para fundamentar seus argumentos, por exemplo, no segundo parágrafo, ela articula o processo de colonização do Brasil, e sua repressão religiosa, à situação atual de discriminação de religiões afro-brasileiras.

A boa organização e o desenvolvimento consistente das informações, dos fatos e das opiniões apresentados pela participante em sua redação evidenciam projeto de texto estratégico e bem executado, que pode ser percebido ao longo do texto. Ela apresenta, logo no início, com a citação de Albert Einstein, a ideia de que é difícil eliminar um preconceito e desenvolve, nos parágrafos seguintes, a enormidade de um preconceito em particular, a intolerância religiosa no Brasil, ou seja, o porquê de ser tão difícil resolver esse problema. No último parágrafo, a participante procura soluções para cada problema apresentado, retomando a ideia inicial, e afirma que, embora seja difícil eliminar um preconceito, é uma tarefa possível.

A participante também apresenta uso diversificado de recursos coesivos que garantem a fluidez de sua argumentação. Há articulação entre os parágrafos (“Concomitantemente”, “Por tudo isso”) e entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (por exemplo, “Assim”, “Ademais”, “mas”, “afinal”, “Dessa forma” e “assim como”).

Com relação à proposta de intervenção, exigência da prova de redação do Enem, observa-se que a participante realizou essa tarefa com excelência, apresentando uma proposta concreta, detalhada, na qual busca, respeitando os direitos humanos, soluções articuladas aos problemas apresentados em seu texto e ao tema. A proposta de intervenção inclui as seguintes ações: tornar as leis existentes mais efetivas e ensinar as crianças, em casa e na escola, o respeito e a tolerância.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2017: cartilha do participante, página 37 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.