Redação nota 1000 do Enem 2014: Leandro Henrique Siqueira Molina

Tema: Publicidade infantil em questão no Brasil · Escola privada de Franca – SP

Publicidade Infantil: Um Desafio Ético e Político

“O progresso roda constantemente sobre duas engrenagens. Faz andar uma coisa esmagando sempre alguém.” A frase, do escritor e pensador francês Vitor Hugo, exprime a ideia de que o sistema capitalista funciona baseando-se na exploração constante dos indivíduos. Analisando esse conceito atrelado à conjuntura atual, nota-se que a publicidade direcionada às crianças, no Brasil, possui um caráter predatório, funcionando como meio de criação de futuros consumistas e explorando a relativa facilidade de se persuadir uma criança, através do uso de elementos do universo infantil.

A necessidade de criação de uma lei só existe quando um conceito de ética que já deveria ser parte do senso comum é ausente. Dessa forma, nota-se que a criação de leis que proíbem ou normatizam a publicidade infantil nos países considerados desenvolvidos revela que esse setor da mídia não age de maneira ética. Isso se deve ao fato de que, com o advento do Neoliberalismo, houve a necessidade de difusão do consumismo, e a publicidade, como a principal forma de imposição desse ideal, passou a explorar a ingenuidade do imaginário infantil para adaptar as crianças a esse formato, incentivando sempre o desejo.

O resultado desse processo é a criação de uma infância voltada para o consumo. As crianças, alienadas pela mídia, são incorporadas ao capitalismo antes mesmo de possuírem consciência e discernimento para compreendê-lo. Suas vidas passam a ser ditadas pelos desejos que lhes foram impostos, tornando tudo – inclusive as datas comemorativas, as quais perdem seu sentido – uma forma de exigir produtos. Essas crianças, sem conceito de real necessidade, crescem para se tornarem adultos egoístas, totalmente submissos ao capitalismo e utilitaristas, estabelecendo como objetivo maior o acúmulo de capitais, visando à satisfação dos desejos e transmissão desses ideais aos seus filhos.

O Estado, como defensor dos direitos da população e do bem estar social, deve criar leis que impeçam a dominação das crianças pelo consumismo, impedindo a associação entre produtos e elementos atrativos a elas. Deve-se utilizar da educação, principal elemento transformador da sociedade, para criar nas crianças o discernimento entre o frívolo e o necessário, coibindo o egoísmo e estimulando a solidariedade. A sociedade, por sua vez, deve conscientizar-se, limitando o consumo das crianças para impedir o desenvolvimento da cultura de consumo. Dessa forma, será possível criar um corpo social ético, harmonioso e saudável.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Leandro Henrique Siqueira Molina na cartilha do INEP
Comentário da banca

As estruturas sintáticas e a seleção lexical demonstram que o participante tem excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa e de escolha de registro. Não há erros gramaticais ou de convenções da escrita, apenas uma omissão de hífen em “bem-estar” na primeira linha do quarto parágrafo. A redação é constituída de quatro parágrafos bem construídos e bem articulados entre si.

O participante desenvolve o tema apresentado no enunciado da prova, A publicidade infantil em questão no Brasil, por meio de argumentação consistente, fundamentada em repertório sociocultural produtivo, pois cita o escritor Vitor Hugo e arrola argumentos que não estão nos textos motivadores, como o do Neoliberalismo. Há excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão.

A tese desenvolvida é a de que é necessário, mediante legislação, um combate efetivo à publicidade infantil, pois as empresas não agem de maneira ética na promoção de seus produtos. Assim, o excesso de propaganda dirigida às crianças aliena, impõe desejos e conduz ao consumo exagerado e desnecessário.

Em defesa de um ponto de vista bem explicitado, o texto apresenta informações relacionadas ao tema do consumismo de forma consistente e organizada, configurando autoria. O participante demonstra competência em selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e argumentos em defesa de um ponto de vista, desenvolvendo o tema de forma consistente e coerente, e a conclusão relaciona-se ao ponto de vista adotado.

O participante apresenta, sem inadequações, repertório diversificado de recursos coesivos e articula bem as informações, os argumentos e as partes do texto. Entre os recursos que constituem a coesão textual e a articulação entre as ideias estão as orações reduzidas, as conjunções (“que”, “e”, “quando”, “ou”), o pronome relativo, os pronomes pessoais e outros elementos referenciais, como “A frase”, “esse conceito” (1° parágrafo); “Dessa forma”, “Isso se deve” (2° parágrafo); “desse processo”, “Suas vidas”, “as quais”, “Essas crianças”, “desses ideais” (3° parágrafo); “Dessa forma” (4° parágrafo).

O participante apresenta, de forma abrangente e detalhada, excelente proposta de intervenção que respeita os direitos humanos: regulamentação estatal que impeça associação entre produtos e elementos atrativos às crianças; educação direcionada a valores, como a solidariedade, e ao discernimento do que realmente é necessário ao consumo; conscientização da sociedade para coibir a cultura do consumo.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2016: cartilha do participante, página 42 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.