PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 9 do ENEM 2003

Prova · Literatura: Linguagem literária e figuras de linguagem

Eu começaria dizendo que poesia é uma questão de linguagem. A importância do poeta é que ele torna mais viva a linguagem. Carlos Drummond de Andrade escreveu um dos mais belos versos da língua portuguesa com duas palavras comuns: cão e cheirando.

Um cão cheirando o futuro

(Entrevista com Mário Carvalho. Folha de SP, 24/05/1988. adaptação)

O que deu ao verso de Drummond o caráter de inovador da língua foi

  1. A
    o modo raro como foi tratado o “futuro”.
  2. B
    a referência ao cão como “animal de estimação”.
  3. C
    a flexão pouco comum do verbo “cheirar” (gerúndio).
  4. D
    a aproximação não usual do agente citado e a ação de “cheirar”.
  5. E
    o emprego do artigo indefinido “um” e do artigo definido “o” na mesma frase.
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Resolução comentada

A linguagem poética pode inovar sem criar palavras novas: basta combinar palavras comuns de uma maneira inesperada, produzindo sentidos que elas não teriam em uma situação cotidiana.

No verso “Um cão cheirando o futuro”, o cão realiza uma ação perfeitamente habitual: cheirar. Portanto, a novidade não está na relação entre o animal e essa ação, nem na forma verbal “cheirando”, que é um gerúndio comum.

O elemento surpreendente é aquilo que o cão cheira: o futuro. Normalmente, o verbo “cheirar” se relaciona a algo que pode ser percebido pelo olfato. O futuro, porém, é uma ideia abstrata, não um objeto que tenha cheiro.

Ao colocá-lo como alvo dessa ação, Drummond trata o futuro como se fosse algo concretamente perceptível. Essa combinação cria uma imagem poética que pode sugerir a capacidade de pressentir o que ainda está por vir.

Assim, o caráter inovador está no modo incomum de apresentar o “futuro”, e não nas palavras consideradas isoladamente.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO verso não caracteriza o cão como animal de estimação, e essa referência não explicaria a inovação.
  • C“Cheirando” é uma forma regular e comum do gerúndio do verbo “cheirar”.
  • DÉ habitual um cão cheirar; a combinação incomum ocorre entre a ação e o futuro.
  • EO uso de artigos definido e indefinido na mesma frase é comum e não produz a inovação poética.

Assunto: Linguagem literária e figuras de linguagem.

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