Questão 54 do ENEM PPL 2019
Lembro, a propósito, uma cerimônia religiosa a que assisti na noite de Santo Antônio de 1975 quando presente a uma festa em honra do padroeiro. Ia a coisa assim bonita e simples, até que, recitadas as cinco dezenas de ave-marias e os seus padre-nossos, chegou a hora do remate com o canto da salve-rainha. O capelão começou a entoar nesse instante hino à Virgem, em latim “Salve Regina, mater misericordiae”, e, o que eu estranhei, foi seguido de pronto sem qualquer hesitação pelos presentes. Depois veio o espantoso para mim: a reza, também entoada, de toda a extensa ladainha de Nossa Senhora igualmente em latim. Eu olhava e não acabava de crer: aqueles caboclos que eu via mourejando de serventes nas obras do bairro estavam agora ali acaipirando lindamente a poesia medieval do responso.
BOSI, A. Dialética da colonização. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
O estranhamento do autor diante da cerimônia relaciona-se ao encontro de temporalidades que
- Aquestionam ritos católicos.
- Bevidenciam práticas ecumênicas.
- Celitizam manifestações populares.
- Dvalorizam conhecimentos escolares.
- Erevelam permanências culturais.
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Resolução comentada
O autor descreve uma cerimônia em 1975, num bairro popular, em que trabalhadores simples ("caboclos", serventes de obra) cantam e rezam de cor, em latim, a salve-rainha e a ladainha, textos da poesia religiosa medieval.
O estranhamento vem do contraste entre dois tempos: o presente (1975, trabalhadores de obras urbanas) e o passado medieval, preservado na oração em latim. Ele não esperava que pessoas de pouca escolaridade conhecessem esses textos e os recitassem sem hesitar.
O encontro de temporalidades, portanto, mostra que uma tradição antiga continua viva na cultura popular, apropriada e adaptada ("acaipirando") pelos fiéis. Isso é o que se chama de permanência cultural: elementos do passado que persistem e se reelaboram no presente.
Conferindo as demais: o texto não questiona o rito, não trata de diálogo entre religiões, não diz que a manifestação se tornou elitizada (ao contrário, é popular) e não fala de conhecimento escolar, pois a oração é transmitida pela prática religiosa.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO autor se surpreende, mas não questiona o rito católico; descreve-o como bonito e simples.
- BSó há prática católica na cena; não há diálogo entre religiões.
- CInverte o sentido: a poesia medieval é apropriada por gente simples, e não restrita a elites.
- DO texto não trata de escola; os caboclos sabem as orações pela vivência religiosa.
Assuntos: permanências culturais, religiosidade popular, interpretação de texto.
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