Questão 14 do ENEM PPL 2019

1º dia · Linguagens, Códigos

O mato do Mutúm é um enorme mundo preto, que nasce dos buracões e sobe a serra. O guará-lobo trota a vago no campo. As pessôas mais velhas são inimigas dos meninos. Soltam e estumam cachorros, para ir matar os bichinhos assustados — o tatú que se agarra no chão dando guinchos suplicantes, os macacos que fazem artes, o coelho que mesmo até quando dorme todo-tempo sonha que está sendo perseguido. O tatú levanta as mãozinhas cruzadas, ele não sabe — e os cachorros estão rasgando o sangue dele, e ele pega a sororocar. O tamanduá. Tamanduá passeia no cerrado, na beira do capoeirão. Ele conhece as árvores, abraça as árvores. Nenhum nem pode rezar, triste é o gemido deles campeando socôrro. Todo choro suplicando por socôrro é feito para Nossa Senhora, como quem diz a salve-rainha. Tem uma Nossa Senhora velhinha. Os homens, pé-ante-pé, indo a peitavento, cercaram o casal de tamanduás, encantoados contra o barranco, o casal de tamanduás estavam dormindo. Os homens empurraram com a vara de ferrão, com pancada bruta, o tamanduá que se acordava. Deu som surdo, no corpo do bicho, quando bateram, o tamanduá caiu pra lá, como um colchão velho.

ROSA, G. Noites do sertão (Corpo de baile).
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

Na obra de Guimarães Rosa, destaca-se o aspecto afetivo no contorno da paisagem dos sertões mineiros. Nesse fragmento, o narrador empresta à cena uma expressividade apoiada na

  1. A
    plasticidade de cores e sons dos elementos nativos.
  2. B
    dinâmica do ataque e da fuga na luta pela sobrevivência.
  3. C
    religiosidade na contemplação do sertanejo e de seus costumes.
  4. D
    correspondência entre práticas e tradições e a hostilidade do campo.
  5. E
    humanização da presa em contraste com o desdém e a ferocidade do homem.
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Resolução comentada

O enunciado pede o recurso que dá expressividade afetiva à cena. Repare no que o narrador faz com os animais.

Os bichos recebem traços humanos:

  1. o tatu "levanta as mãozinhas cruzadas" e dá "guinchos suplicantes", como quem reza ou implora;
  2. o coelho "sonha que está sendo perseguido", o que lhe atribui uma vida interior;
  3. o tamanduá "abraça as árvores", e o choro dos bichos por socorro é "feito para Nossa Senhora", como uma prece;
  4. o casal de tamanduás dorme, tranquilo e indefeso.

Esse recurso é a humanização (ou personificação) da presa. O narrador toma o lado dos animais e desperta a compaixão do leitor.

Do outro lado estão os homens. As "pessoas mais velhas são inimigas dos meninos", atiçam cachorros, cercam os animais dormindo e batem com "pancada bruta". O corpo do tamanduá cai "como um colchão velho", comparação que mostra o desdém com que o tratam. A violência é ressaltada justamente pelo contraste com a fragilidade dos bichos.

Logo, a expressividade se apoia na humanização da presa em contraste com o desdém e a ferocidade humanos.

Alternativa E.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO trecho quase não trabalha cores; há alguns sons (guinchos, som surdo), mas o efeito central é afetivo, não plástico.
  • BNão há luta equilibrada nem fuga: os animais estão encurralados, dormindo ou indefesos, e a cena é de caça unilateral.
  • CA referência a Nossa Senhora aparece só no choro dos bichos, não na contemplação religiosa do sertanejo.
  • DO campo não é mostrado como hostil; a hostilidade vem dos homens contra os animais.

Assuntos: personificação, Guimarães Rosa, interpretação de texto literário.

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