Questão 6 do ENEM PPL 2018
TEXTO I
Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo [...]. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas.
RODRIGUES, N. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
TEXTO II
A melhor banda de todos os tempos da última semana
As músicas mais pedidas
Os discos que vendem mais
As novidades antigas
Nas páginas dos jornais
Um idiota em inglês
Se é idiota, é bem menos que nós
Um idiota em inglês
É bem melhor do que eu e vocês
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
TITÃS. A melhor banda de todos os tempos da última semana.
São Paulo: Abril Music, 2001 (fragmento).
O verso do Texto II que estabelece a adequada relação temática com “o nosso vira-latismo”, presente no Texto I, é:
- A“As novidades antigas”.
- B“Os discos que vendem mais”.
- C“O melhor disco brasileiro de música americana”.
- D“A melhor banda de todos os tempos da última semana”.
- E“O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos”.
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Resolução comentada
O "complexo de vira-latas", de Nelson Rodrigues, é a postura de inferioridade do brasileiro diante do que vem de fora: ele se julga menor que o estrangeiro e não acredita em si mesmo.
No Texto II, essa ideia aparece na estrofe do refrão: "Um idiota em inglês / Se é idiota, é bem menos que nós". Ou seja, até o "idiota" estrangeiro é visto como superior a nós. É a mesma submissão cultural do vira-latismo.
A questão pede o verso que liga esse tema (valorização do estrangeiro e desvalorização do nacional) ao Texto I. Vamos conferir os versos:
- "As novidades antigas": paradoxo sobre modismo, sem tratar de nacional versus estrangeiro.
- "Os discos que vendem mais": fala de mercado, sem comparação entre países.
- "O melhor disco brasileiro de música americana": o melhor do Brasil é aquele que imita a música dos Estados Unidos. O valor nacional só existe quando copia o estrangeiro, o que expressa a inferioridade cultural.
- "A melhor banda de todos os tempos da última semana": crítica ao exagero e à efemeridade da mídia.
- "O maior sucesso... entre os dez maiores fracassos": outro paradoxo sobre sucesso e fracasso.
Só o terceiro verso retoma a submissão do brasileiro ao modelo estrangeiro.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO paradoxo "novidades antigas" critica o modismo, sem relação com inferioridade diante do estrangeiro.
- BRefere-se apenas às vendas no mercado fonográfico, sem contrapor Brasil e exterior.
- DIroniza o exagero e a efemeridade dos rótulos da mídia, não o complexo de inferioridade nacional.
- EJoga com a contradição entre sucesso e fracasso, sem tratar da valorização do que é estrangeiro.
Assuntos: intertextualidade, identidade cultural, interpretação de texto.
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