Questão 8 do ENEM PPL 2017

1º dia · Linguagens, Códigos

Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau de arara.
Quero, por isso, falar com você
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí matando
[...]
Homem comum, igual
a você,
[...]
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonhos e margaridas.

FERREIRA GULLAR. Dentro da noite veloz.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento).

No poema, ocorre uma aproximação entre a realidade social e o fazer poético, frequente no Modernismo. Nessa aproximação, o eu lírico atribui à poesia um caráter de

  1. A
    agregação construtiva e poder de intervenção na ordem instituída.
  2. B
    força emotiva e capacidade de preservação da memória social.
  3. C
    denúncia retórica e habilidade para sedimentar sonhos e utopias.
  4. D
    ampliação do universo cultural e intervenção nos valores humanos.
  5. E
    identificação com o discurso masculino e questionamento dos temas líricos.
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Resolução comentada

O poema de Ferreira Gullar pertence à poesia engajada, que trata a literatura como parte da luta social. Vamos ver como o eu lírico enxerga a poesia.

  1. O eu lírico se apresenta como "homem comum" e propõe "lutarmos juntos por um mundo melhor". Isso indica união, ou seja, agregação, e um objetivo construtivo.

  2. Ele diz que "a poesia é rara e não comove / nem move o pau de arara". Ou seja, reconhece que a poesia, sozinha, tem pouco poder de mudar a realidade dos trabalhadores. Por isso deixa de lado o papel de poeta e chama o outro para a ação: "oferecer-lhe meu braço", "o latifúndio está aí matando".

  3. No final, propõe "uma muralha com nossos corpos de sonhos e margaridas". Os homens comuns, unidos, formam uma barreira contra a injustiça do latifúndio, isto é, contra a ordem social instituída. Essa é a intervenção.

A poesia, portanto, passa a ser compromisso coletivo de transformação social, e não apenas expressão de sentimentos.

A alternativa A reúne exatamente esses dois traços: agregação construtiva (união dos homens comuns) e poder de intervenção na ordem instituída (a luta contra o latifúndio).

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO eu lírico diz que a poesia "não comove", então não a vê como força emotiva; e a preservação da memória social não aparece no texto.
  • CO poema propõe ação concreta e união, não denúncia apenas retórica; "sedimentar sonhos" não corresponde à ideia da muralha.
  • DO foco não é ampliar o universo cultural, e sim transformar a realidade social por meio da luta.
  • E"De homem para homem" é apenas modo de falar direto ao interlocutor; o poema não trata de discurso masculino nem questiona temas líricos.

Assuntos: poesia engajada, Ferreira Gullar, função da poesia.

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