Questão 44 do ENEM PPL 2017

1º dia · Linguagens, Códigos

Dois parlamentos

Nestes cemitérios gerais
não há morte pessoal.
Nenhum morto se viu
com modelo seu, especial.
Vão todos com a morte padrão,
em série fabricada.
Morte que não se escolhe
e aqui é fornecida de graça.
Que acaba sempre por se impor
sobre a que já medrasse.
Vence a que, mais pessoal,
alguém já trouxesse na carne.
Mas afinal tem suas vantagens
esta morte em série.
Faz defuntos funcionais,
próprios a uma terra sem vermes.

MELO NETO, J. C. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 (fragmento).

A lida do sertanejo com suas adversidades constitui um viés temático muito presente em João Cabral de Melo Neto. No fragmento em destaque, essa abordagem ressalta o(a)

  1. A
    inutilidade de divisão social e hierárquica após a morte.
  2. B
    aspecto desumano dos cemitérios da população carente.
  3. C
    nivelamento do anonimato imposto pela miséria na morte.
  4. D
    tom de ironia para com a fragilidade dos corpos e da terra.
  5. E
    indiferença do sertanejo com a ausência de seus próximos.
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Resolução comentada

O poema fala de "cemitérios gerais", onde os mortos pobres são enterrados. Há aqui um jogo com a ideia de produção industrial: "morte padrão", "em série fabricada", "fornecida de graça", "defuntos funcionais".

A morte de cada sertanejo, que em vida foi marcada por adversidades, chega sem escolha e sem singularidade: "não há morte pessoal", "nenhum morto se viu com modelo seu, especial". Todos recebem a mesma morte, igual e anônima, como peças fabricadas em série.

O que impõe essa uniformidade é a miséria: a morte é "de graça", fornecida pelo próprio meio, e prevalece sobre qualquer morte mais pessoal que alguém já trouxesse "na carne" (a fome, a doença, a seca). O poema, portanto, destaca o nivelamento anônimo dos pobres diante da morte, resultado da condição de miséria.

As demais alternativas erram o foco. Não se trata de hierarquia social após a morte, nem de descrever a desumanidade dos cemitérios em si, nem de ironia sobre a fragilidade dos corpos, nem de indiferença do sertanejo diante dos próximos.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO poema não discute divisão hierárquica após a morte; trata da padronização da morte dos pobres.
  • BOs cemitérios são só o cenário; a crítica é à massificação e ao anonimato, não à desumanidade do lugar.
  • DA ironia existe, mas visa a padronização da morte, não a fragilidade dos corpos e da terra.
  • ENada no texto trata de indiferença do sertanejo diante da ausência de próximos.

Assuntos: poesia de João Cabral de Melo Neto, interpretação de texto.

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