Questão 126 do ENEM PPL 2016
Maria Diamba
Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais:
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que ainda vem do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
LIMA, J. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007.
O poema de Jorge de Lima sintetiza o percurso de vida de Maria Diamba e sua reação ao sistema opressivo da escravidão. A resistência dessa figura feminina é assinalada no texto pela relação que se faz entre
- Ao uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
- Ba exploração sexual e a geração de novas escravas.
- Ca prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente.
- Do prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África.
- Eo medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.
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Resolução comentada
O poema conta a trajetória de Maria Diamba em etapas, e a fala é o fio condutor.
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No início, ela "falou que sabia fazer bolos" para não apanhar. Aqui a fala é um recurso de sobrevivência: ela tenta escapar da violência oferecendo o que sabe fazer.
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Em seguida, o texto mostra que ela foi explorada: "Viram que sabia fazer tudo", inclusive gerar filhas para a Casa-Grande. Quanto mais ela oferecia, mais era usada. Por isso "Não falou mais": o silêncio marca a submissão.
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Por fim, "Depois falou só", isolada, diante da ventania que vem do Sudão (a memória da África). Ela então diz que quer fugir "dos senhores e das judiarias deste mundo para o sumidouro", isto é, escolhe a morte como saída.
Assim, a fala passa de estratégia de sobrevivência a afirmação de vontade própria: no final, ela decide o próprio destino, mesmo que pela fuga extrema. Essa relação entre falar e decidir é o que indica a resistência.
As demais alternativas tratam de elementos isolados ou distorcem o texto. Nada indica ascensão social, prazer com o vento, esperança de retorno ou medo da morte.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Ba exploração sexual aparece como violência sofrida, não como elo com a resistência, que se marca pela fala.
- Ca cozinha é tentativa de escapar das pancadas, não de ascender socialmente.
- Da ventania do Sudão é memória da África, mas o poema não fala em prazer nem em esperança de voltar.
- Eela não teme a morte; o sumidouro é a escolha que ela deseja como fuga.
Assuntos: interpretação de poema, literatura afro-brasileira.
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