Questão 97 do ENEM PPL 2015
TEXTO I
Voluntário
Rosa tecia redes, e os produtos de sua pequena indústria gozavam de boa fama nos arredores. A reputação da tapuia crescera com a feitura de uma maqueira de tucum ornamentada com a coroa brasileira, obra de ingênuo gosto, que lhe valera a admiração de toda a comarca e provocara a inveja da célebre Ana Raimunda, de Óbidos, a qual chegara a formar uma fortunazinha com aquela especialidade, quando a indústria norte-americana reduzira à inatividade os teares rotineiros do Amazonas.
SOUSA, I. Contos amazônicos. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
TEXTO II
Relato de um certo oriente
Emilie, ao contrário de meu pai, de Dorner e dos nossos vizinhos, não tinha vivido no interior do Amazonas. Ela, como eu, jamais atravessara o rio. Manaus era o seu mundo visível. O outro latejava na sua memória. Imantada por uma voz melodiosa, quase encantada, Emilie maravilha-se com a descrição da trepadeira que espanta a inveja, das folhas malhadas de um tajá que reproduz a fortuna de um homem, das receitas de curandeiros que veem em certas ervas da floresta o enigma das doenças mais temíveis, com as infusões de coloração sanguínea aconselhadas para aliviar trinta e seis dores do corpo humano. “E existem ervas que não curam nada”, revelava a lavadeira, “mas assanham a mente da gente. Basta tomar um gole do líquido fervendo para que o cristão sonhe uma única noite muitas vidas diferentes”. Esse relato poderia ser de duvidosa veracidade para outras pessoas, mas não para Emilie.
HATOUM, M. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.
As representações da Amazônia na literatura brasileira mantêm relação com o papel atribuído à região na construção do imaginário nacional. Pertencentes a contextos históricos distintos, os fragmentos diferenciam-se ao propor uma representação da realidade amazônica em que se evidenciam
- Aaspectos da produção econômica e da cura na tradição popular.
- Bmanifestações culturais autênticas e da resignação familiar.
- Cvalores sociais autóctones e influência dos estrangeiros.
- Dformas de resistência locais e do cultivo das superstições.
- Ecostumes domésticos e levantamento das tradições indígenas.
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Resolução comentada
O enunciado pede o que diferencia os dois fragmentos, ou seja, o que cada um destaca na representação da Amazônia.
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Texto I (Inglês de Sousa, século XIX): fala de Rosa, que tece redes, de sua "pequena indústria" e da concorrência com Ana Raimunda, que formou uma "fortunazinha". Há também a ameaça da "indústria norte-americana", que "reduzira à inatividade os teares rotineiros do Amazonas". O foco é a produção econômica artesanal e sua decadência diante do estrangeiro.
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Texto II (Milton Hatoum, século XX): Emilie se encanta com a trepadeira que espanta a inveja, as receitas de curandeiros, as infusões que aliviam dores e as ervas que fazem sonhar. O foco é o saber popular de cura e o imaginário ligado à floresta.
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Comparando as alternativas:
- A une exatamente os dois focos: economia (Texto I) e cura na tradição popular (Texto II).
- B, D e E citam elementos que aparecem em apenas um texto, ou em nenhum: não há resignação familiar nem resistência local. O levantamento das tradições indígenas também não é o assunto.
- C fala de influência estrangeira, que só aparece no Texto I, e não caracteriza o Texto II.
Portanto, o Texto I traz a produção econômica e o Texto II traz a cura pela tradição popular.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BNão há resignação familiar em nenhum dos textos, e "autêntico" não descreve o contraste entre eles.
- CA influência estrangeira aparece só no Texto I, e o Texto II não trata de valores sociais autóctones.
- DNão há resistência local nos textos, e o Texto I não trata de superstições.
- ENão há costumes domésticos nem levantamento de tradições indígenas como foco dos textos.
Assuntos: interpretação de textos literários, literatura amazônica.
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