Questão 125 do ENEM PPL 2015

2º dia · Linguagens, Códigos

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

PRADO, A. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.

Um dos procedimentos consagrados pelo Modernismo foi a percepção de um lirismo presente nas cenas e fatos do cotidiano. No poema de Adélia Prado, o eu lírico resgata a poesia desses elementos a partir do(a)

  1. A
    reflexão irônica sobre a importância atribuída aos estudos por sua mãe.
  2. B
    sentimentalismo, oposto à visão pragmática que reconhecia na mãe.
  3. C
    olhar comovido sobre seu pai, submetido ao trabalho pesado.
  4. D
    reconhecimento do amor num gesto de aparente banalidade.
  5. E
    enfoque nas relações afetivas abafadas pela vida conjugal.
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Resolução comentada

O Modernismo valorizou o lirismo do cotidiano: a poesia não está em temas elevados, mas em cenas simples da vida comum. A pergunta é de onde o eu lírico tira a poesia neste poema.

Veja o percurso do texto:

  1. A mãe achava o estudo "a coisa mais fina do mundo", mas o eu lírico corrige: "Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento".
  2. Ele então conta uma cena banal: o pai faz serão, a mãe comenta "Coitado, até essa hora no serviço pesado", arruma pão e café e deixa água quente no tacho.
  3. Nos versos finais, "Não me falou em amor. Essa palavra de luxo", a mãe não diz a palavra, mas o cuidado dela já é amor.

Ou seja, o sentimento aparece no gesto prático de cuidar, aparentemente banal (preparar comida e água quente), e não em declarações. É esse reconhecimento que transforma a cena doméstica em poesia.

As outras opções tomam um detalhe pelo todo ou distorcem o sentido: não há ironia sobre o estudo, a mãe não é vista como pragmática em oposição ao sentimento, o pai é apenas parte da cena, e não se fala de relações abafadas.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO eu lírico corrige a mãe sobre o estudo, mas sem ironia, e isso não é a fonte do lirismo.
  • BA mãe é justamente quem age por sentimento; não há oposição entre sentimentalismo e pragmatismo.
  • CO olhar comovido é da mãe sobre o pai, não do eu lírico, e é só parte da cena.
  • EO poema não trata de afetos abafados pela vida conjugal; o afeto se expressa nos gestos de cuidado.

Assuntos: modernismo, lirismo do cotidiano, interpretação de poema.

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