PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 4 (CFS 1) da EEAR 2027
Texto-base das questões 01 a 04 · CFS 1
A beleza total
Carlos Drummond de Andrade
A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.
Contos plausíveis - Carlos Drummond de Andrade - 2012.
As questões de 01 a 04 referem-se ao texto acima.
– O conto “A Beleza Total”, de Carlos Drummond de Andrade, recorre a uma narrativa absurda para expor
- Aa ironia diante de uma sociedade que transforma a beleza feminina em prisão.
- Ba fragilidade emocional das pessoas diante de padrões de beleza fora do comum.
- Ca vaidade excessiva da personagem Gertrudes, que provoca sua própria ruína.
- Do sarcasmo do autor ao mostrar que a beleza, dom divino, pode ser imortal e triunfar sobre a morte.
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Resolução comentada
O conto usa o absurdo (espelhos que pasmam, engarrafamento de uma semana, lei do Senado proibindo a moça de ir à janela, mordomo que se mata) para exagerar até o limite o efeito social da beleza. Esse exagero é recurso de ironia: o que parece dom vira castigo.
Veja o que acontece com Gertrudes:
- Ela não pode sair à rua, pois o trânsito para.
- É proibida até de chegar à janela, por lei.
- Vive confinada num salão onde só a mãe entra.
- Morre por falta de ar puro, isto é, a beleza a aprisiona e a mata.
Quem causa o problema não é Gertrudes: o texto diz que ela "não podia fazer nada", pois nasceu assim, era seu "destino fatal". Logo, a culpa não é de vaidade dela (C). Também não há foco na fragilidade emocional das pessoas (B): o que o texto mostra são reações extremas e coletivas, usadas para criticar a sociedade e as instituições, não para analisar sentimentos. Quanto à imortalidade (D), é só o desfecho irônico: a beleza fica num salão fechado a sete chaves, sem ninguém para vê-la, e não há "dom divino" no texto.
A crítica central é, portanto, a uma sociedade que idolatra a beleza feminina a ponto de enclausurar quem a possui.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BO texto não trata da fragilidade emocional das pessoas, e sim do exagero social e institucional diante da beleza.
- CGertrudes não é culpada: a beleza é seu destino fatal, e ela nada podia fazer; a ruína vem do confinamento.
- DA imortalidade da beleza é um final irônico (num salão fechado, sem ser vista), e o texto não fala de dom divino nem de triunfo.
Assuntos: Ironia, humor e sátira, Carlos Drummond de Andrade.
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Fonte: EEAR 2027 · CFS 1. Prova oficial ↗