PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 1 (CFS 1) da EEAR 2023

CFS 1 · Português: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos)

Texto-base das questões 01 a 04 · CFS 1

O pastor e a princesa

Carlos Heitor Cony

Um jovem pastor, de cabelos louros e cacheados (façamos uma homenagem ao lugar-comum), andava pela floresta quando, de repente, ao atravessar uma clareira, viu enorme e formoso castelo.

E, na torre mais alta, uma linda princesa de tranças também louras e olhar sonhador. Os dois se olharam e, a partir daquele momento, todas as tardes, o pastor ia à clareira e ficava olhando a princesa, que também olhava pra ele.

Ele suspirava, sabendo que jamais poderia entrar no castelo e ver de perto a princesa. Eis que, um dia, encontrou uma velha na floresta carregando pesado feixe de lenha. O jovem pastor a ajudou, e a velha logo se transformou numa fada e disse que realizaria qualquer pedido dele.

“Quero ser um príncipe para entrar naquele castelo!”, pediu o pastor. A fada advertiu-o de que realizaria o seu desejo, mas que ele jamais poderia voltar a ser o que era. O jovem foi em frente. Seria um absurdo voltar a ser pastor.

Logo as fanfarras do castelo soaram para o príncipe que se aproximava. A corte recebeu o visitante com banquetes, desfiles, torneios e todas as homenagens. O rei gostou tanto do príncipe que lhe ofereceu a mão de sua filha.

Louco de alegria, o jovem aceitou e quis beijar a princesa. Ela recusou o beijo. Disse que não poderia casar com o príncipe porque estava apaixonada por um pastor louro de cabelos cacheados que, todas as tardes, costumava aparecer na clareira na floresta. A ele, dera seu coração e somente a ele amaria.

Não sei se inventei ou se li em algum canto essa história cheia de lugares-comuns. Não importa. Não sou jovem nem pastor, não tenho cabelos louros e cacheados. Mas, todas as tardes, continuo indo à floresta para ver se me acontece alguma coisa.

O harém das bananeiras – Editora Objetiva - 1999

As questões de 01 a 04 referem-se ao texto acima.

– Por que as expressões “lugar-comum” e “lugares-comuns” aparecem, respectivamente, no primeiro e no último parágrafos do texto?

  1. A
    Porque, nos contos de fada, não é comum os personagens serem loiros de cabelos cacheados.
  2. B
    Porque a história é marcada por modelos e ideias muito comuns nos contos de fada.
  3. C
    Porque o autor se justifica, afirmando que se inspirou em uma história que já existe.
  4. D
    Porque florestas e castelos são cenários comuns em todas as histórias antigas.
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Resolução comentada

"Lugar-comum" é uma ideia, imagem ou fórmula muito repetida, um clichê. No texto, o narrador usa a expressão duas vezes para avisar ao leitor que a história se apoia em estereótipos.

  1. No primeiro parágrafo, o narrador descreve o pastor como jovem de "cabelos louros e cacheados" e pede: "façamos uma homenagem ao lugar-comum". Ele reconhece que a descrição é o retrato típico do herói de conto de fadas.

  2. A história segue com outros elementos típicos do gênero: o castelo enorme, a princesa loura na torre mais alta, o amor à primeira vista, a velha que vira fada e realiza um pedido, o rei que oferece a mão da filha, os banquetes e torneios.

  3. No último parágrafo, o narrador diz que a história é "cheia de lugares-comuns". Ele resume o que já tinha sido mostrado: a narrativa é construída com modelos e ideias muito usados nos contos de fada.

As duas ocorrências, portanto, assinalam o caráter convencional da narrativa, e a alternativa B diz isso.

A alternativa C é parcial. O autor diz que não sabe se inventou a história ou se a leu, mas isso não explica o uso de "lugar-comum". Ele não se justifica por ter se inspirado em algo já existente.

Alternativa B.

Pegadinha: A alternativa C engana porque o último parágrafo menciona que o autor talvez tenha lido a história em algum canto, mas isso não explica o sentido de "lugar-comum".

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAfirma o contrário do texto: os cabelos louros e cacheados são justamente o clichê do herói de conto de fadas, e não algo incomum.
  • CO narrador diz não saber se inventou ou leu a história, mas "lugar-comum" se refere aos clichês, não a uma justificativa de inspiração.
  • DGeneraliza demais ("todas as histórias antigas") e restringe os lugares-comuns ao cenário, ignorando personagens e enredo.

Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).

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Fonte: EEAR 2023 · CFS 1. Prova oficial ↗