Redação nota 1000 do Enem 2022: Rodrigo Junqueira Santiago Simões
No livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, Ailton Krenak critica o distanciamento entre a população brasileira como um todo e a natureza, o que não se aplica às comunidades indígenas. Tal pensamento é extremamente atual, já que não só indígenas como todas as populações tradicionais têm uma relação de respeito mútuo com a natureza, aspectos que as diferenciam do resto dos brasileiros. Com isso, a agressão ao meio ambiente e o apagamento dos saberes ancestrais configuram desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil.
Primeiramente, é preciso compreender como a agressão ao meio ambiente fere as comunidades tradicionais. Há séculos esses povos vêm construindo suas culturas com respeito à natureza, tratando-a de forma sustentável. Consequentemente, criou-se nesses grupos uma visão afetiva dos recursos naturais, que se tornaram base para a manutenção de uma identidade característica a cada uma dessas comunidades. No entanto, todos os biomas brasileiros estão sendo constantemente ameaçados, seja pela mineração, garimpo ilegal, desmatamento ou poluição, fatores que têm em comum a priorização de ganho financeiro em detrimento da preservação ambiental. Assim, parte da população coloca em risco o maior patrimônio dos povos tradicionais, a natureza, em busca de recursos naturais que trazem benefício restrito aos agressores, tornando o modo de vida dessas comunidades impraticável. Portanto, com base na importância do meio ambiente para as comunidades tradicionais, causar danos à natureza significa, também, causar danos aos povos em questão.
Ademais, é de grande relevância entender como o apagamento dos saberes ancestrais leva à desvalorização das populações tradicionais. Devido à grande diversidade de povos tradicionais no Brasil, houve, em cada um deles, a criação de um conjunto de conhecimentos, pensamentos, filosofias e linguagens distintas, passado pelas gerações, ditando e mantendo vivo o modo de vida que caracteriza identitariamente cada grupo. Entretanto, essa bagagem epistêmica é muito pouco externalizada, pelo fato de que esses saberes são coletivizados apenas em esferas menores, de forma a manter a ancestralidade dos povos locais apenas entre si. Logo, todo conhecimento produzido nessa perspectiva é desconhecido do grande público, sendo pouco discutido e não fazendo parte da visão de mundo da maioria dos brasileiros. Dessa forma, os saberes dos povos tradicionais são desconsiderados, acarretando na desvalorização de todos esses grupos.
Em síntese, o impacto causado ao meio ambiente e a desconsideração de seus saberes são grandes agentes na desvalorização das comunidades tradicionais. Por isso, cabe ao Ministério do Meio Ambiente proteger os biomas do país, através do endurecimento de punições contra crimes ambientais, com a finalidade de salvaguardar o meio de vida de diferentes povos, tornando possível a manutenção da diversidade cultural brasileira. Além disso, o Ministério da Educação deve promover a discussão sobre os conhecimentos das comunidades tradicionais, por meio da incorporação de conteúdos relacionados a esses povos na grade curricular das escolas, a fim de divulgar a visão de mundo desse grupo, fomentando uma convivência pacífica entre toda a população.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
O participante demonstra ter domínio das convenções da escrita e da correta estruturação sintática dos períodos. O texto apresenta apenas uma inadequação vocabular, no primeiro parágrafo, imprópria na modalidade escrita formal da língua, com o uso do vocábulo “resto” (em vez de “restante”) no trecho “aspectos que as diferenciam do resto dos brasileiros”.
O participante também revela ter domínio do texto dissertativo-argumentativo. Já no primeiro parágrafo, apresenta os elementos do tema de forma completa diante do ponto de vista que pretende defender: “a agressão ao meio ambiente e o apagamento dos saberes ancestrais configuram desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. O desenvolvimento do texto se dá nos dois parágrafos seguintes. No segundo, trata-se da ameaça aos biomas brasileiros, e consequentemente, às populações ancestrais que habitam esses lugares, por meio de atividades ilegais, como a mineração, o garimpo e o desmatamento. No terceiro, o foco é o apagamento dos saberes ancestrais, partilhados apenas em esferas restritas ao próprio povo. O texto é finalizado com duas propostas de ações para o enfrentamento dos desafios: o endurecimento de punições, pelo Ministério do Meio Ambiente, contra crimes ambientais que afetam essas comunidades vulneráveis; e discussões promovidas pelo Ministério da Educação para divulgação dos saberes, da visão de mundo e dos conhecimentos das comunidades tradicionais.
Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem-organizados em defesa do ponto de vista. Inicialmente, o participante cita o livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, de Ailton Krenak, para afirmar que, ao contrário do que ocorre na população brasileira como um todo, as comunidades indígenas têm uma relação de respeito mútuo com a natureza. Por isso, a agressão ao meio ambiente e o apagamento dos saberes ancestrais, como afirma, “configuram desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. O segundo parágrafo denuncia a priorização de ganho financeiro em detrimento da preservação ambiental por meio de mineração, garimpo ilegal, desmatamento ou poluição, o que ameaça os biomas brasileiros e coloca em risco a natureza, patrimônio dessas comunidades. Essa ideia é retomada e ampliada no terceiro parágrafo, cujo foco é a desvalorização das populações tradicionais com o apagamento dos saberes ancestrais coletivizados apenas em esferas menores; desconhecidos, portanto, do grande público. Como solução para esse desafio, o participante propõe o endurecimento de punições contra crimes ambientais pelo Ministério do Meio Ambiente, para proteger a natureza, salvaguardar o meio de vida de diferentes povos, assim como a discussão, pelo Ministério da Educação, dos saberes e da visão de mundo e dos conhecimentos das comunidades tradicionais.
O texto apresenta continuidade temática e, além disso, o participante apresenta, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam argumentos, partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“Tal pensamento”, “que as diferenciam”, “suas culturas”, “seus saberes”) e palavras ou expressões sinônimas (“nesses grupos” e “esses povos” por “comunidades e povos tradicionais”), quanto no sequencial (“seja pela [...] ou poluição”, “Assim”, “Portanto”, “Em síntese”), assim como no emprego adequado e correto dos sinais de pontuação ligando palavras, orações e períodos complexos.
Como a prova pede proposta de intervenção que respeite os direitos humanos, esse texto é finalizado com duas propostas que cumprem esse requisito, ambas descritas anteriormente. Elas, como se nota, permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.
Conclui-se que o participante contemplou em seu texto, integralmente e com excelência, todas a partes da proposta de redação.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2023: cartilha do participante, página 38 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.