Redação nota 1000 do Enem 2019: Stela Terra Lopes
A questão do acesso ao cinema, apesar de não ser amplamente discutida, é um problema muito expressivo no Brasil atualmente. A gravidade do quadro é evidenciada pelos dados do site Meio e Mensagem: 83% da população brasileira não frequentam tal ambiente. Nesse contexto, percebe-se que o acesso ao cinema não é democratizado e convém analisar as causas e impactos negativos dessa situação na sociedade.
Em primeiro lugar, é preciso compreender as causas dessa problemática. Em um mundo marcado pelo capitalismo, é comum que, cada vez mais, seja fortalecido o sistema de mercantilização do lazer, ou seja, este passa a ser vendido por empresas em forma de mercadoria. Nesse sentido, nota-se que, muitas vezes, parcelas da população com condições financeiras mais baixas acabam não conseguindo ter acesso às atividades de lazer, como o cinema, devido aos preços, geralmente, inacessíveis. Além disso, outro fator que contribui para a falta do amplo acesso da população ao cinema é a localização no interior dos shoppings, os quais, normalmente, estão situados nos centros das grandes cidades, o que acaba dificultando o acesso de moradores de bairros mais afastados. Dessa forma, o cinema no Brasil torna-se um ambiente elitizado.
Em segundo lugar, é importante salientar os impactos negativos desse quadro na sociedade. Tendo em vista que a parcela mais pobre da população, geralmente, não consegue arcar com os custos de frequentar o cinema e sabendo que o acesso ao lazer é um direito garantido pela Constituição Federal, percebe-se a ocorrência da “Cidadania de papel”, termo cunhado pelo escritor paulista Gilberto Dimenstein, que diz respeito à existência de direitos na teoria (Constituição), os quais não ocorrem, de fato, na prática. Sob essa perspectiva, nota-se que a falta de democratização do acesso ao cinema gera exclusão social das camadas menos favorecidas e impede que elas possam usufruir de seus direitos.
Portanto, é mister que o Ministério da Infraestrutura, em parceria com o Ministério da Cultura, construa cinemas públicos, por meio da utilização de verbas governamentais, a fim de atender a população que não pode pagar por esse serviço, fazendo com que, assim, o acesso ao cinema seja democratizado e essa parcela da sociedade deixe de usufruir apenas de uma “Cidadania de papel”.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
Ver como o INEP publicou
Comentário da banca
Observa-se, no texto, um excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente, sem qualquer falha, e que não há desvios em relação à norma culta da língua portuguesa.
Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que a redação da participante apresenta introdução em que inicia a discussão do tema, desenvolvimento de justificativas que comprovam seu ponto de vista e conclusão que encerra a discussão, demonstrando excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa: já no primeiro parágrafo, a participante aponta que o acesso ao cinema não é democratizado no país, uma vez que grande parcela da população não frequenta o local. Observa-se também que a participante usa, de forma produtiva, repertório sociocultural pertinente à discussão quando faz referência ao conceito de “Cidadania de papel”, proposto por Gilberto Dimenstein, para discutir o fato de que algumas pessoas não têm, na prática, acesso a alguns direitos garantidos pela Constituição.
Em relação ao projeto de texto, percebemos que ele é estratégico, ou seja, que se configura na organização clara e no desenvolvimento consistente da redação. A participante apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto para defender seu ponto de vista. No primeiro parágrafo, o problema é apresentado – o acesso ao cinema não é democratizado – e propõe-se analisar suas causas e seus impactos negativos. Ao longo do desenvolvimento do texto, a participante foca, primeiramente, nas causas da falta de democratização, apontando os preços altos dos ingressos e a localização dos cinemas no interior de shoppings como fatores que dificultam o acesso por parte de pessoas com menor poder aquisitivo e/ou que morem em bairros mais afastados. Já no terceiro parágrafo, a participante se propõe a discutir os impactos negativos da falta de democratização, como o fato de algumas pessoas não terem acesso ao lazer, que lhes deveria ser garantido por direito, o que gera a exclusão social. Por fim, é apresentada uma proposta de intervenção articulada ao problema apontado pela participante.
Verifica-se, ainda, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Em segundo lugar”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (como “Apesar de” e “Nesse contexto”, no 1º parágrafo; “Nesse sentido”, “Além disso” e “Dessa forma”, no 2º parágrafo; “Tendo em vista” e “Sob essa perspectiva”, no 3º parágrafo; e “a fim de”, “esse” e “assim”, no 4º parágrafo).
Por fim, a participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, articulada à discussão desenvolvida no texto, detalhada e que respeita os direitos humanos. Nela, sugere-se a construção de cinemas públicos, o que garantiria o acesso a esses espaços por quem tem menor poder aquisitivo e, consequentemente, a democratização desse tipo de arte.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2020: cartilha do participante, página 39 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.