Redação nota 1000 do Enem 2017: João Pedro Fidelis Belluzo

Tema: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Na antiga pólis de Esparta, havia a prática da eugenia, ou seja, a segregação dos denominados “imperfeitos”, como, por exemplo, os deficientes. Passados 2000 anos, o preconceito contra esse grupo ainda prevalece socialmente e afeta, principalmente, a área da educação. Nesse contexto, os surdos são grandes vítimas da exclusão no processo de formação educacional, o que traz desafios e a busca por autonomia e pela participação de pessoas com essa deficiência no espaço escolar brasileiro.

Para o filósofo francês Voltaire, a lei essencial para a prática da igualdade é a tolerância. Porém, nas escolas, onde as diferenças aparecem, essa característica não se concretiza. Nesse ambiente, a surdez se torna motivo para discriminação e para o bullying, contrariando o objetivo da educação de elevar e emancipar o indivíduo, como defende o sociólogo Paulo Freire, idealizador da educação brasileira. Dessa forma, os surdos, segregados, encontram um alicerce frágil, para alcançar o desenvolvimento de seus talentos e habilidades.

Além disso, nota-se que as instituições escolares não oferecem suporte adequado para os deficientes auditivos. Com isso, a independência e a participação desses indivíduos são comprometidas, o que acentua as desigualdades. Essa ideia se torna paradoxal quando comparada à Declaração Universal dos Direitos Humanos e à Constituição Federal (1988), documentos de alta hierarquia, comprovando a necessidade de incluir e assistir a população surda nos processos educacionais brasileiros.

Portanto, conclui-se que deve-se tomar medidas que incluam os surdos na educação, assegurando o desenvolvimento desse grupo. As escolas devem, então, promover a assistência a esses deficientes, por meio da disponibilização de voluntários que dominem a linguagem de Libras, principal forma de comunicação da população surda, com o objetivo de inserir as pessoas com essa deficiência nas salas de aula, facilitando também o aprendizado. A mídia deve, ainda, mostrar, com exemplos, a igualdade que deve prevalecer no ambiente escolar, acabando com o preconceito e com o bullying. Com essas medidas, a eugenia social será minimizada e os deficientes auditivos serão incluídos nos processos educacionais brasileiros.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de João Pedro Fidelis Belluzo na cartilha do INEP
Comentário da banca

O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e há apenas um desvio de colocação pronominal em “que deve-se”, trecho no qual deveria ocorrer a próclise.

Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que o participante apresenta uma tese, o desenvolvimento de argumentos que comprovam essa tese e uma conclusão que encerra a discussão, ou seja, o participante apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa: já no primeiro parágrafo, o participante aponta que “os surdos são grandes vítimas da exclusão no processo de formação educacional”.

Para desenvolver as ideias selecionadas, o participante faz uso produtivo de repertório sociocultural pertinente ao tema no primeiro parágrafo, ao tratar da eugenia de deficientes em Esparta, e no segundo parágrafo, ao apresentar ideias de Voltaire e Paulo Freire.

Podemos perceber, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, que se configura na organização e no desenvolvimento da redação. O participante apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada, para defender seu ponto de vista. A interferência do preconceito na formação educacional dos surdos e a importância de assistir essas pessoas são apresentadas na introdução e retomadas ao longo do texto e na conclusão, quando são propostas ações que podem mudar esse cenário.

Em relação à coesão, nota-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Além disso”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “ou seja”, “por exemplo”, “nesse contexto”; 2º parágrafo: “porém”, “nesse ambiente”, “dessa forma”; 3º parágrafo: “com isso”, “essa”; 4º parágrafo: “então”, “ainda”; entre outros).

Com relação à proposta de intervenção, observa-se que o participante apresenta uma proposta concreta e detalhada, na qual busca, respeitando os direitos humanos, soluções articuladas aos problemas apresentados em seu texto e ao tema proposto. A proposta de intervenção inclui as seguintes ações: promover assistência aos surdos e incentivar a igualdade.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2018: cartilha do participante, página 39 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.