Redação nota 1000 do Enem 2017: Mariana Camelier Mascarenhas

Tema: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil

Na antiga Esparta, crianças com deficiência eram assassinadas, pois não poderiam ser guerreiras, profissão mais valorizada na época. Na contemporaneidade, tal barbárie não ocorre mais, porém há grandes dificuldades para garantir aos deficientes – em especial os surdos – o acesso à educação, devido ao preconceito ainda existente na sociedade e à falta de atenção do Estado à questão.

Inicialmente, um entrave é a mentalidade retrógrada de parte da população, que age como se os deficientes auditivos fossem incapazes de estudar e, posteriormente, exercer uma profissão. De fato, tal atitude se relaciona ao conceito de banalidade do mal, trazido pela socióloga Hannah Arendt: quando uma atitude agressiva ocorre constantemente, as pessoas param de vê-la como errada. Um exemplo disso é a discriminação contra os surdos nas escolas e faculdades – seja por olhares maldosos ou pela falta de recursos para garantir seu aprendizado. Nessa situação, o medo do preconceito, que pode ser praticado mesmo pelos educadores, possivelmente leva à desistência do estudo, mantendo o deficiente à margem dos seus direitos – fato que é tão grave e excludente quanto os homicídios praticados em Esparta, apenas mais dissimulado.

Outro desafio enfrentado pelos portadores de deficiência auditiva é a inobservância estatal, uma vez que o governo nem sempre cobra das instituições de ensino a existência de aulas especializadas para esse grupo – ministradas em Libras – além da avaliação do português escrito como segunda língua. De acordo com Habermas, incluir não é só trazer para perto, mas também respeitar e crescer junto com o outro. A frase do filósofo alemão mostra que, enquanto o Estado e a escola não garantirem direitos iguais na educação dos surdos – com respeito por parte dos professores e colegas – tal minoria ainda estará sofrendo práticas discriminatórias.

Destarte, para que as pessoas com deficiência na audição consigam o acesso pleno ao sistema educacional, é preciso que o Ministério da Educação, em parceria com as instituições de ensino, promova cursos de Libras para os professores, por meio de oficinas de especialização à noite – horário livre para a maioria dos profissionais – de maneira a garantir que as escolas e universidades possam ter turmas para surdos, facilitando o acesso desse grupo ao estudo. Em adição, o Estado deve divulgar propagandas institucionais ratificando a importância do respeito aos deficientes auditivos, com postagens nas redes sociais, para que a discriminação dessa minoria seja reduzida, levando à maior inclusão.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Mariana Camelier Mascarenhas na cartilha do INEP
Comentário da banca

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e há apenas dois desvios: no segundo parágrafo, no trecho “que age como se os deficientes auditivos fossem incapazes de estudar e, posteriormente, exercer uma profissão”, em que a ausência da preposição “de” antes de “exercer uma profissão” causa um problema de paralelismo; e no terceiro parágrafo, em que se percebe a ausência de vírgula após a intercalação (“enquanto o Estado (...) professores e colegas”).

Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que a participante apresenta uma tese, o desenvolvimento de argumentos que comprovam essa tese e uma conclusão que encerra a discussão – ou seja, ela apresenta excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo.

Além disso, o tema é abordado de forma completa: já no 1º parágrafo, há referência aos surdos, especificamente, e aos desafios relacionados à formação educacional, sendo eles o preconceito e a falta de atenção por parte do Estado. Esses dois desafios são desenvolvidos no 2º e no 3º parágrafos, respectivamente.

Para desenvolver as ideias selecionadas, a participante faz uso produtivo de repertório sociocultural pertinente ao tema em três momentos do texto: (i) no 1º parágrafo, ao fazer referência ao que ocorria com bebês deficientes na antiga Esparta; (ii) no 2º parágrafo, ao apresentar o conceito de banalidade do mal, da socióloga Hannah Arendt; e (iii) no 3º parágrafo, em que utiliza uma ideia de Habermas sobre inclusão. Destacamos que o uso desse repertório é produtivo porque ele contribui para a argumentação proposta pela participante.

Podemos perceber, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto estratégico, que se configura na organização e no desenvolvimento da redação. A participante apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada, para defender seu ponto de vista de que os surdos enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso à educação, causadas pela discriminação e pela inobservância do Estado a essas questões.

Em relação à coesão, nota-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Inicialmente”, “Outro desafio” e “Destarte”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “pois”, “porém”; 2º parágrafo: “de fato”, “disso”, “nessa situação”; 3º parágrafo: “uma vez que”, “além da”, “não só (...) mas também”; 4º parágrafo: “em adição”, “para que”; entre outros).

Por fim, a participante elabora excelente proposta de intervenção: concreta, detalhada e que respeita os direitos humanos. As ações interventivas apresentadas no texto trazem, como principal agente, o governo, o que retoma a ideia de que há uma falta de atenção a essa problemática por parte do Estado. Além disso, a proposta está atrelada aos desafios apresentados, uma vez que propõe ações que facilitem o acesso à educação e reduzam a discriminação dos surdos.

Fonte: INEP, Redação no Enem 2018: cartilha do participante, página 31 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.