Redação nota 1000 do Enem 2015: Laiane da Silva Carvalho
Mesmo com a vigência da Lei Maria da Penha, com a criminalização do feminicídio na última década, o aumento percentual do número de mulheres vítimas de homicídio no Brasil persiste. Tipificada pela violência física, moral, psicológica ou sexual, a violação dos direitos femininos tem suas raízes em construções sociais e culturais, incorporadas como legítimas, que precisam ser desfeitas, pois, do contrário, o ideal de indistinção no gozo dos direitos fundamentais do cidadão não se consolidará.
A crença na subalternidade femina é construída socialmente. A filósofa Simone de Beauvoir corrobora isso ao afirmar que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Os dizeres de Beauvoir revelam como a associação da figura feminina a determinados papéis não é condicionada por características biológicas, mas por pré-determinações sociais. Seguindo essa linha de pensamento, é usual, por exemplo, que mulheres que exerçam profissões tradicionalmente associadas a homens, como a de motorista, sofram preconceito no ambiente de trabalho e sejam violentadas psicologicamente.
Além disso, a continuidade de práticas violentas contra a mulher é favorecida pelo que o pensador Pierre Bourdieu definiu como violência simbólica. Nesse tipo de violência, a sociedade passa a aceitar como natural as imposições de um segmento social hegemônico, neste caso, o gênero masculino, causando a legitimação da violação de direitos e/ou da desigualdade. Nesse contexto, urge a tomada de medidas que visem mitigar a crença de que as mulheres são inferiores. Para isso, cabe à sociedade civil organizada, o terceiro setor, a realização de palestras que instruam acerca da igualdade entre os gêneros. Ao poder público, cabe instituir a obrigatoriedade de participação masculina em fóruns, palestras e seminários que discorram acerca da importância do respeito às mulheres.
Procedendo-se assim, casos como o da francesa Olympe de Gouges, guilhotinada na Revolução Francesa por exigir direitos femininos, ficarão apenas como o símbolo de um passado em que os Direitos Humanos não eram para todos.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
O texto demonstra que a participante tem excelente domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa e de escolha de registro. O texto contém apenas um erro de pontuação, com o emprego inadequado de vírgula nas linhas finais do terceiro parágrafo (“Ao poder público, cabe...”), configurando um desvio gramatical, e apenas um erro de ortografia na linha inicial do segundo parágrafo, na qual a palavra “femina” (em vez de “feminina”) não segue a grafia oficial, ou seja, trata-se de um desvio de convenção da escrita.
A participante desenvolve o tema proposto no enunciado da prova por meio de argumentação consistente, fundamentando-se em repertório sociocultural produtivo, já que cita adequadamente Simone de Beauvoir, Pierre Bourdieu, a Revolução Francesa, além de se referir às raízes históricas e ideológicas de que originam o machismo na sociedade brasileira.
Apresenta também excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão, e organiza o texto em quatro parágrafos bem construídos e bem articulados entre si. O tema é desenvolvido de modo consistente e autoral em defesa de seu ponto de vista, por meio do acesso a outras áreas do conhecimento, com progressão fluente, articulada ao ponto de vista defendido.
Desenvolve a tese de que é necessário, principalmente por meio de campanhas educativas, um combate efetivo à violência contra a mulher, proveniente da predominância do patriarcalismo.
A participante articula bem as ideias, os argumentos, as partes do texto e apresenta, sem inadequações, repertório diversificado de recursos coesivos, com o uso de conectores variados (e, que, em que, pois, mas, como) e de elementos referenciais e sequenciadores linguísticos, como “corrobora isso”, “Seguindo essa linha de pensamento” (2° parágrafo); “Além disso”, “Nesse tipo”, “Nesse contexto”, “Para isso” (3° parágrafo); “Procedendo assim” (4° parágrafo).
Considera que é necessário mitigar a crença de que as mulheres são inferiores por meio de excelente proposta de intervenção que respeita os direitos humanos: aponta o papel da sociedade civil organizada, que deveria promover campanhas educativas e palestras sobre igualdade entre os gêneros, bem como aponta o papel do poder público, que deveria “instituir a obrigatoriedade de participação masculina em fóruns, palestras e seminários que discorram acerca da importância do respeito às mulheres”. Trata-se de redação cuja proposta de intervenção é bem elaborada, relaciona-se ao tema e decorre da discussão desenvolvida no texto.
Enfim, a redação apresenta encadeamento entre as ideias e demonstra competência em selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos e argumentos em defesa de um ponto de vista: o tema é desenvolvido de forma coerente, os argumentos selecionados são consistentes e a conclusão é relacionada ao ponto de vista adotado.
Fonte: INEP, Redação no Enem 2016: cartilha do participante, página 51 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.